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Introdução

Definição

Dislexia é uma incapacidade específica de aprendizagem, de origem neurobiológica.

É caracterizada por dificuldades na correção e/ou fluência na leitura de palavras e por baixa competência leitora e ortográfica.

Estas dificuldades resultam de um Défice Fonológico, inesperado, em relação às outras capacidades cognitivas e às condições educativas.

Secundariamente podem surgir dificuldades de compreensão leitora e experiência de leitura reduzida que pode impedir o desenvolvimento do vocabulário e dos conhecimentos gerais.  

Disortografia é uma incapacidade específica de aprendizagem caracterizada por dificuldades em escrever sem erros ortográficos. Esta dificuldade acontece, com elevada frequência, em crianças com dislexia.

Disgrafia é uma incapacidade específica de aprendizagem caracterizada por dificuldades em escrever as letras manuscritas de forma legível e correta. Esta dificuldade pode existir, ou não, em crianças com dislexia e disortografia.

Frequência

É a mais comum das dificuldades de aprendizagem, sendo mais frequente no sexo masculino. As proporções variam entre 2 rapazes para uma rapariga, ou 3 rapazes para uma rapariga.

O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais DSM-5 -  2013, indica uma frequência de 5 a 15%.

Em Portugal, um estudo de 2011 refere a frequência de 5,4%.  

Causa

Até há poucos anos pensava-se que a dislexia era uma perturbação comportamental que primariamente afetava a leitura.

Atualmente sabe-se que a dislexia é uma perturbação herdada, com manifestações clínicas complexas, incluindo défices no processamento fonológico, em discriminar os sons da linguagem oral, na leitura, na memória de trabalho, na capacidade de nomeação rápida, na coordenação sensoriomotora, na automatização e no processamento sensorial precoce.

Sinais e sintomas

Na primeira infância:

Os primeiros sinais indicadores de possíveis dificuldades surgem a nível da linguagem oral. O atraso na aquisição da linguagem pode ser um primeiro sinal de alerta para possíveis problemas de linguagem e de leitura.

No Jardim-de-infância e Pré-escolar:

  • Linguagem “bebé” persistente;
  • Frases curtas, palavras mal pronunciadas, com omissões e substituições de sílabas e de fonemas;
  • Dificuldade em aprender nomes: de cores, de pessoas, de objetos, de lugares...;
  • Dificuldade em memorizar canções e lengalengas;
  • Dificuldade na aquisição dos conceitos temporais e espaciais básicos: ontem/amanhã, manhã/tarde, direita/esquerda, antes/depois;
  • Dificuldade em aperceber-se de que as frases são formadas por palavras e que as palavras se podem segmentar em sílabas e em fonemas;
  • Não saber as letras do seu nome próprio;
  • Dificuldade em aprender e recordar os nomes e os sons das letras;

No 1.º Ano de Escolaridade:

  • Dificuldade em compreender que as palavras se podem segmentar em sílabas e fonemas;
  • Dificuldade em associar as letras aos seus sons, por exemplo, em associar a letra “éfe ” com o som [f];
  • Erros de leitura por desconhecimento das regras de correspondência grafo-fonémica: vaca/faca; janela/chanela; calo/galo...;
  • Dificuldade em ler monossílabos e em soletrar palavras simples: ao, em, pai, bola, rato...;
  • Maior dificuldade na leitura de palavras isoladas e de pseudopalavras - “modigo”;
  • Recusa, ou insistência, em adiar as tarefas de leitura e escrita;
  • Necessidade de acompanhamento individual do professor para prosseguir e concluir os trabalhos;
  • Relutância, lentidão e necessidade de apoio dos pais na realização dos trabalhos de casa;

A partir do 2.º Ano de Escolaridade:

  • Progresso muito lento na aquisição da leitura e da ortografia;
  • Dificuldade, em ler palavras desconhecidas, irregulares, com fonemas e sílabas semelhantes necessitando de recorrer à soletração;
  • Insucesso na leitura de palavras multissilábicas;
  • Substituição de palavras de pronúncia difícil por outras com o mesmo significado: automóvel/carro...;
  • Tendência para adivinhar as palavras, apoiando-se no desenho e no contexto, em vez de as descodificar;
  • Melhor capacidade para ler palavras em contexto do que para ler palavras isoladas;
  • Dificuldade em ler pequenas palavras funcionais como “aí, ia, ao, ou, em, de... ”;
  • Dificuldades na leitura e interpretação de problemas matemáticos;
  • Leitura oral sincopada, trabalhosa e sem fluência;
  • Desagrado e tensão durante a leitura oral;
  • Dificuldade em terminar os testes no tempo previsto;
  • Erros ortográficos frequentes nas palavras com correspondências grafo-fonémicas irregulares;
  • Caligrafia imperfeita, irregular, muitas vezes ilegível;
  • Os trabalhos de casa parecem não ter fim, os pais são recrutados como leitores;
  • Falta de prazer na leitura, evitando ler livros ou sequer pequenas frases;
  • A correção leitora melhora com o tempo, no entanto mantêm a falta de fluência e a leitura continua trabalhosa;
  • Baixa autoestima, com sofrimento, que nem sempre é evidente para aos outros.

O que fazer

É frequente serem os pais a aperceberem-se das dificuldades dos filhos e a alertar os professores para as dificuldades que observam.

Lamentavelmente, por desconhecimento dos sinais de alerta desta perturbação, os professores respondem “é imaturo, vamos esperar passe, que ocorra um clic”…

A dislexia não é um problema de maturação, esperar que um “clic” surja de um dia para o outro e que, por “magia”, as crianças se tornem leitoras é um erro grave que pode ter repercussões muito sérias na sua vida pessoal e escolar.

Se suspeita que o seu filho/a está com dificuldades em aprender a ler, se troca as letras, se não consegue ler ditongos, se necessita de ajuda para fazer os trabalhos que envolvem a leitura e escrita, se oferece resistência em ir à escola, se está a ficar atrasado em relação aos colegas, não hesite em consultar um psicólogo especialista em dislexia.

Ter um filho diagnosticado com dislexia pode ser uma experiência muito dolorosa, mas um especialista experiente desmistificará a situação, fará referência a pessoas com dislexia que se notabilizaram em diferentes domínios, transmitir-lhe-á uma mensagem de esperança e confiança.

Quanto mais precocemente forem feitos o diagnóstico e a reeducação, mais rapidamente a criança recuperará e ficará apta a acompanhar os seus colegas.

A leitura é o saber que permite o acesso a todos os outros saberes, a criança que não consegue ler irá ter dificuldades em todas as outras matérias curriculares.

A identificação, o diagnóstico e o tratamento precoce são fundamentais para a obtenção de sucesso. 

As crianças com dislexia necessitam do acompanhamento individual realizado por um especialista especialmente treinado no uso de um método sistemático, cumulativo e multissensorial, que envolva simultaneamente os vários sentidos (audição, visão, toque).

A intervenção reeducativa deverá ser realizada em estreita colaboração com os pais e professores.    

Os pais são colaboradores preciosos nesta reeducação, ao trabalharem com os filhos apercebem-se das suas dificuldades, ajudam na sua recuperação e estreitam os laços afetivos.

Tratamento

Intervenção Reeducativa

Aprender a ler é a grande aquisição da infância. Quando as crianças iniciam a escolaridade são enormes as expetativas em relação ao “saber ler”.

A grande maioria das crianças aprende a ler sem dificuldades, e com prazer, passando sequencialmente por determinadas etapas até se tornarem leitores hábeis.

Uma pequena minoria, embora possuindo um nível de inteligência médio, ou superior, revelam dificuldades inesperadas, e de diferentes graus, que afetam seriamente o seu sucesso escolar, surpreendendo os pais e educadores e originando sentimentos de tristeza e frustração que muitas vezes deixam penosas marcas para toda a vida.

Os pais e os professores, com demasiada frequência, não compreendem o porquê desta dificuldade “invisível”. As crianças são adjetivadas de distraídas, imaturas, preguiçosas, que não estão motivadas para aprender, que só pensam em brincar, que não param sentadas... Outras, ainda menos afortunadas, são maltratadas e chamadas de “burras”...

Atualmente sabe-se que as dificuldades leitoras resultam de um défice no processamento dos sons da linguagem, um Défice Fonológico. Para além deste défice no processamento fonológico, estão presentes défices na memória de trabalho, na capacidade de nomeação rápida e na capacidade de automatização.

Sendo inquestionável que cada criança é um ser único, com as suas características individuais, é certo que em relação ao modo como aprendem a ler todas partilham a mesma estrutura cerebral, pelo que todas beneficiam de aprender com métodos que lhes ensinem, passo a passo, a mesma sequência de competências.

Os pais devem estar atentos à intervenção reeducativa que é proposta aos seus filhos, quer em relação às “habilidades” - conjunto de processos e representações mentais - que lhe são ensinadas, quer em relação aos métodos de ensino que são utilizados.

Até chegar à leitura fluente e compreensiva, o cérebro tem que percorrer um longo e difícil percurso, as crianças têm que fazer a aquisição e a automatização de uma hierarquia de habilidades: “consciência fonológica” (identificar e manipular palavras, sílabas e fonemas); “princípio alfabético” (as correspondências fonema → grafema e vice-versa); “fusão fonémica” (leitura conjunta de dois, ou mais, fonemas); “fusões fonémicas sequenciais” (leitura sequencial de sílabas); encontrar a fonologia correta para cada palavra e ainda automatizar todas estas competências para, finalmente, atingir um nível de leitura fluente, precisa e compreensiva e saber escrever sem erros ortográficos.

A aprendizagem da leitura e escrita requer a utilização de métodos de Ensino Estruturados que atendam aos seguintes princípios orientadores:

  • Ensino Sistemático - A organização dos conteúdos a serem aprendidos segue a ordem lógica da linguagem oral. Começa pelas competências mais básicas, os fonemas, e progride até às palavras e textos.  
  • Ensino Cumulativo - Cada passo, cada habilidade, tem que estar fundamentada em conceitos previamente aprendidos.
  • Ensino Explícito - O ensino de todos os conceitos é intencional, deliberado, e com uma interação continua entre o adulto e a criança.
  • Ensino Diagnóstico – O Programa Reeducativo Individual deve ser elaborado tendo em conta as habilidades já aprendidas e prosseguir para as que necessitam ser adquiridas
  • Ensino Monitorizado – Periodicamente devem ser feitas reavaliações para verificar a evolução e, se necessário, fazer os ajustes que forem adequados. Os pais devem ter acesso aos resultados que vão sendo obtidos e colaborarem no processo reeducativo.

A ideia de ensinar a ler através de métodos globais, que partem de textos, de frases, de 28 palavas e que não ensinam explicitamente as correspondências letras-sons não é eficaz pois que não ensinam a descodificar, mas sim a memorizar imagens de palavras.

Evolução / Prognóstico

Sendo uma perturbação de origem genética a dislexia permanece ao longo da vida; a evolução e o prognóstico dependem da severidade do défice, das capacidades cognitivas de aprendizagem, das comorbilidades, da precocidade e da eficácia da intervenção reeducativa.

Prevenção / Recomendações

A dislexia uma perturbação da linguagem pelo que se podem observar algumas manifestações antes do início da aprendizagem da leitura.

A linguagem e as competências leitoras emergentes são os sinais preditores mais relevantes de futuras dificuldades para a aprendizagem da leitura.

Existem alguns sinais que podem indiciar dificuldades futuras se esses sinais forem observados, e se persistirem ao longo de vários meses, os pais devem procurar uma avaliação especializada.

A intervenção precoce é o fator mais importante na recuperação dos leitores disléxicos.

O défice fonológico, que está na origem das dificuldades leitoras pode, e deve, ser avaliado no pré-escolar a fim de ser implementado um programa de Desenvolvimento da Consciência Fonológica.

A dislexia pode, e deve, ser diagnosticada a partir do início do 1º ano de escolaridade, logo que a criança comece a apresentar dificuldades em aprender o nome e os sons das letras, a ler os ditongos, as sílabas… 

Saber Mais

Temas/Artigos Relacionados

  1. Dehaene, S. (2007). Les neurones de la lecture. Odile Jacob, Paris
  2. Freitas, M.J., & Alves, D., Costa, T. (2008). O Conhecimento da Língua: Desenvolver a Consciência Fonológica. Ministério da Educação, DGIDC. PNEP, Lisboa.
  3. Morais, J. (2012). CRIAR LEITORES. O ensino da leitura  - para professores e encarregados de educação. Livpsic, Porto.
  4. Shaywitz, S. (2008). Vencer a Dislexia. Porto Editora
  5. Teles, P. (2004). Dislexia: Como identificar? Como Intervir? Revista Portuguesa de Clínica Geral, Vol 20, nº 6.
  6. Teles, P. (2010). Dislexia e Disortografia. Da Linguagem Falada à Linguagem Escrita. A Intervenção Psicológica em Problemas de Educação e Desenvolvimento Humano. Edições Universitárias Lusófonas. Lisboa.
  7. Teles, P. (2012). Como é que o Cérebro Aprende a Ler? Atas do 12º Colóquio Internacional de Psicologia e Educação, ISPA 21ª 23 junho 2012.
  8. Teles, P. (2012). Método Fonomímico Paula Teles®. Atas do 12º Colóquio Internacional de Psicologia e Educação, ISPA 21ª 23 junho 2012.
  9. Teles, P. (2013). Método Fonomímico Paula Teles: aprender a ler e a escrever os sons da fala. In EBOOK - Para uma Educação Inclusiva: dos conceitos às práticas  - Volume II . 7º CAPÍTULO. (pp. 128-168). Sanches, Isabel (org.). Edições Universitárias Lusófonas, Lisboa.

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