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Introdução

"Para criar uma criança é necessário uma aldeia”. No entanto, a sociedade em que vivemos actualmente não pode estar mais longe dessa realidade. Casais sozinhos, desenraizados da aldeia, cidade ou mesmo país onde nasceram vêem-se a braços com a realidade de criarem os filhos sem apoios e sem modelos, inseridos num mercado de trabalho exigente e submetidos a inúmeras pressões sociais.

É do conhecimento geral que a amamentação é a melhor fonte de nutrição para as crianças, mas as pessoas desconhecem os benefícios específicos e ignoram os riscos associados com o não amamentar. Além disso, a maior parte das pessoas incluindo profissionais de saúde, acredita que a melhoria do leite artificial ao longo dos anos o tornou equivalente ao leite materno, o que não é verdade.

As mães desconhecem o que devem esperar da experiência da amamentação e como devem fazê-lo. Muitas vezes, porque é suposto ser natural amamentar, idealizam cenários perfeitos e ao serem confrontadas com inúmeras dificuldades, surge a desilusão e o abandono precoce. O próprio conhecimento destas dificuldades provoca nas mulheres desconfiança da viabilidade da sua execução.

A importância do envolvimento da família, dos amigos e da comnidade

Para amamentar e manter a amamentação é necessária toda uma rede de suporte. Porque a mulher é quem amamenta, são-lhe atribuídas as responsabilidades pelo sucesso ou fracasso da amamentação, impondo-lhe uma culpa que não lhe cabe a ela em exclusivo, mas deve ser imputada a todos os que a rodeiam desde o / a parceiro(a), aos familiares e amigos, à comunidade onde está inserida, aos cuidados de saúde e a toda a sociedade que a envolve, com as contingências culturais, económicas e de governação.

Parceiro(a)

Numerosos estudos demonstram a tremenda influência na amamentação que os parceiros podem ter, encorajando a mulher a amamentar, oferecendo suporte emocional e executando as tarefas práticas do dia-a-dia.

Familiares e amigos

As mulheres têm três vezes mais probabilidade de parar a amamentação nas duas primeiras semanas se nenhuma das suas amigas amamenta. Quase 90% das mulheres com amigas que amamentaram planeiam amamentar os seus bebés. Quando não existem amigas nestas circunstâncias a percentagem diminui para metade. As avós (do bebé) também exercem grande influência nas decisões e práticas de amamentação. Quando as avós amamentaram, partilham a sua experiência e conhecimento e dão apoio. Se a avó não amamentou, à primeira dificuldade irá sugerir o uso de leite artificial. E não podemos esquecer que os conselhos das avós podem ser o fruto de crenças culturais enraizadas na sociedade, que não são apoiantes da amamentação.

Comunidade

Uma nova mãe é tipicamente vulnerável e sensível. O conceito socialmente vigente é que amamentar tem muitos inconvenientes, pelo que a mãe que amamenta tem que sacrificar muitos dos seus hábitos e estilo de vida. Também o esforço necessário para amamentar e ultrapassar as dificuldades do estabelecimento da amamentação são vistas como ameaças à independência e liberdade das mulheres.

O sistema social tradicional de suporte que dava o apoio informal à amamentação deixou de existir numa sociedade onde, muitas vezes, a norma é o aleitamento artificial. Os “grupos de apoio de mães” em que as mulheres ajudam outras mulheres a amamentar e a manter a amamentação tornaram-se um poderoso auxiliar, ao colmatar as falhas de conhecimento, ou os conhecimentos incorrectos vulgarmente disseminados e que interferem com o aleitamento.

No entanto, o aconselhamento de mãe para mãe pode ser menos eficaz na prevenção do desmame precoce, nos países onde a amamentação não é a norma, onde o leite artificial é facilmente acessível e penetrantemente comercializado e onde as mulheres comummente confiam nos profissionais de saúde para a informação e o apoio aos desafios da amamentação.

O trabalho e as políticas de saúde

Trabalho

O regresso ao trabalho é sempre uma fase conturbada e muito desafiante em termos de amamentação. No entanto, uma grande porção da força de trabalho atual é constituída por mulheres em idade fértil. As mães que trabalham em horário completo ou que regressam antes dos seis meses têm mais dificuldade em manter a amamentação.

A maior parte dos locais de trabalho não dispõe de condições mínimas de apoio à amamentação, nem mesmo uma sala para amamentar o bebé ou extrair o leite, sendo muitas mulheres compelidas a utilizar locais tão impróprios como as instalações sanitárias. No entanto, os locais de trabalho que se esforçam por apoiar a amamentação vêem a sua produtividade aumentada, o absentismo, a rotatividade dos empregados e os custos de saúde diminuídos, sendo também socialmente mais apreciados.

Medidas como flexibilidade no horário e nos tempos de pausa, privacidade para a extração de leite, ou para que a criança seja trazida à mãe para esta a amamentar, possibilidade de trabalho a partir de casa, ensino pré-natal sobre amamentação e apoio pós-natal sempre que necessário, são comprovadamente medidas eficazes para a manutenção da amamentação mesmo que a mulher tenha que regressar mais cedo ao trabalho. No entanto, é a duração da licença de maternidade remunerada que se comprovou ter maior impacto na duração da amamentação.

Com o regresso das mulheres ao trabalho, as crianças acabam por ser entregues aos infantários. Também estes podem ter um papel muito importante em termos da amamentação, criando espaços para que as mães possam amamentar quando vão buscar as crianças ou nos intervalos da hora de almoço. O infantário deve ter uma política escrita de aleitamento materno, bem como as condições e os conhecimentos sobre o armazenamento e utilização do leite.

Políticas de saúde

Para um apoio eficaz ao aleitamento materno a literatura demonstra que estratégias integradas e coordenadas funcionam melhor que intervenções individuais, pela necessidade de maximizar sinergias benéficas entre os componentes. Os estudos económicos mostram que pode haver uma poupança importante de custos, por melhoria das práticas de amamentação.

Apesar de se reconhecer que a imposição de comprar o leite artificial nas maternidades é uma forma fácil de incentivar a amamentação, continua a haver distribuição gratuita de leites artificiais nas instituições de saúde. A própria denominação de “adaptado” que de uma forma tão universalizada é usada por profissionais e público em geral, evoca erradamente o seu critério de adequação.

Em Portugal, as mães provenientes de grupos sociais mais desfavorecidos têm taxas de amamentação mais baixas. O desconhecimento da importância do aleitamento materno, a falta de preparação pré-natal e de apoio pós-natal ou o baixo recurso aos cuidados de saúde, podem ser alguns dos motivos. O apoio prestado a esta faixa da população deve ser ainda maior, como forma de mitigar as desigualdades em saúde e sociais.

A Iniciativa Hospital Amigo dos Bebés quando implementa os 10 passos preconizados na sua concepção, comprovadamente aumenta sete vezes as taxas de aleitamento aos quatro meses. Portugal já certificou e recertificou 15 hospitais e um Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) desde 2005.

A formação dos profissionais de saúde

“As mães respeitam os profissionais de saúde, procuram-nos e confiam nas informações e no apoio por eles disponibilizado…contudo, nem sempre a formação é a mais adequada e os profissionais baseiam-se muitas vezes no que ouviram, no que aprenderam com os outros (mais velhos) e na sua própria experiência ao longo do tempo.

Todos os profissionais de saúde devem obter formação em aleitamento materno e actualização constante dos vários aspectos com ele relacionados. Seja médico (pediatra, obstetra, médico de família), enfermeira (parteira, de família) ou outro profissional, deve adquirir conhecimentos teóricos, práticos e capacidades de aconselhamento às mães; deve adquirir conhecimentos sobre as vantagens do aleitamento materno, a fisiologia, técnica de amamentação assim como as situações mais comuns com que se pode confrontar na sua prática profissional diária. A atitude perante o aleitamento materno deve ser profissional, porque é um tema profissional. É um assunto que requer formação adequada, organizada e contínua”.

In amamentar.net (criado pelo Alto Comissariado da Saúde e já desativado)

Este desconhecimento sobre a amamentação é partilhado por numerosos outros países, onde as mães se deparam com a mesma falta de apoio e incentivo. Em mais nenhuma área da medicina, de forma tão evidente, os profissionais trocam o conhecimento e as recomendações baseadas na evidência pelas suas próprias experiências e convicções (Yang, Salamonson, & Burns, 2018) (Chantry, Dewey, Peerson, Wagner, & Nommsen-Rivers, 2014).

O sucesso da amamentação começa nas maternidades

Nas maternidades a amamentação na primeira hora de vida e o contacto precoce pele com pele não são devidamente incentivados, facilitados ou até permitidos, apesar das evidências da sua importância para a sobrevivência da criança e para o estabelecimento da amamentação.

Para além da regulação da temperatura do bebé e da colonização com as bactérias da pele da mãe, necessárias à formação de um microbioma protector, este contacto precoce facilita a estimulação adequada das hormonas da lactação, prolactina e ocitocina, de forma a propiciar uma amamentação bem-sucedida e duradoura.

A oferta frequente de leite artificial a crianças nascidas sem qualquer factor de risco durante a estadia na maternidade, desnecessária na maior parte dos casos, prejudica gravemente a amamentação. Mesmo em mulheres que tinham intenção de amamentar, a suplementação no hospital foi associada com o dobro do risco de não amamentar aos 30 a 60 dias de vida, e quase o triplo do risco de suspender a amamentação aos 60 dias, sendo ainda dose dependente.

Alguns dos factores implicados prendem-se com a confusão de estímulos em termos da forma e fluxo propiciados pela mama e pelo biberão, e terá ainda maior impacto o facto de a mãe sofrer um duro golpe na sua confiança. Intervenções como a cesariana, de emergência ou eletiva, estão claramente associadas a menores taxas de aleitamento materno.

Nas instituições de cuidados de saúde primários e nos consultórios de pediatria verifica-se um fenómeno semelhante, sendo o leite artificial a única sugestão oferecida para os problemas de mamilos fissurados ou progressão ponderal considerada insuficiente.

Aliás, apesar dos numerosos esforços desenvolvidos internacionalmente para aumentar as taxas de amamentação, o consumo de leite artificial tem vindo a aumentar ao longo dos anos, e as estimativas continuam a apontar para o seu incremento.

O que fazer

É emergente investir na formação sobre lactação humana dos profissionais de saúde e de educação, mudar as políticas de apoio à amamentação, nomeadamente a licença de maternidade paga a 100% até aos seis meses, para que o aleitamento exclusivo possa ser uma realidade para todas as mães que o desejem.

“O sucesso ou fracasso da amamentação não deve ser visto como responsabilidade apenas da mulher. A sua capacidade para amamentar é moldada pelo apoio e ambiente onde vive. Os governos e a sociedade têm a responsabilidade alargada de apoiar a mulher através de políticas e programas na comunidade.” (Nigel Rollins, OMS).

As informações da Pedipedia não substituem nem devem adiar a consulta pessoal com um profissional de saúde qualificado.

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