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Introdução

Definição

A Discalculia é um termo alternativo para designar dificuldades de aprendizagem caracterizadas por problemas no processamento de informações numéricas, aprendizagem de factos aritméticos e realização de cálculos precisos ou fluentes (DSM-5®) (1).

É uma perturbação de origem neurobiológica com uma forte componente genética.

Embora haja algumas diferenças nas várias definições de Discalculia, todas elas incluem três vertentes: dificuldades na matemática, a especificidade das dificuldades e a sua origem numa provável disfunção cerebral.

Durante as tarefas de cálculo são ativados circuitos neuronais localizados predominantemente nos lóbulos parietais. No caso das crianças com Discalculia esta ativação é menor.

O diagnóstico de Discalculia deverá ser excluído no caso de existir um nível cognitivo abaixo da média; perturbação auditiva ou visual, outras perturbações neurológicas ou uma inadequação pedagógica.

Epidemiologia/Prevalência

Segundo a British Dyslexia Association, a Discalculia afeta entre 3% a 6% da população (ou 1 em cada 20), afetando de igual modo ambos os sexos.

História Clínica

Anamnese

O diagnóstico de qualquer perturbação de aprendizagem deve ter sempre em conta todos os dados passíveis de recolha, nomeadamente: a história clínica e familiar; o percurso escolar; o comportamento; a socialização; a avaliação do nível cognitivo, capacidade de focalização e manutenção da atenção e memória de curta e longa duração.  

Os dados recolhidos na entrevista deverão incluir informações detalhadas acerca dos seguintes aspetos: parto; desenvolvimento psicomotor, visão, audição e linguagem; hábitos de sono; desenvolvimento afetivo e emocional; limiar de resistência à frustração; adaptação ao ambiente escolar; avaliações dos docentes; relação com os pares; memorização de cantilenas, nomeação das cores, das estações do ano, os conceitos temporais, identificação e reconhecimento de números, cálculos mentais simples e complexos sem necessidade de apoio; história familiar de dificuldades no raciocínio e no cálculo mental numérico.

No caso da Discalculia, e ao contrário de outras perturbações de aprendizagem, não existem ainda testes aferidos para a população portuguesa que nos permitam avaliar os conhecimentos nesta área.

Exame objetivo

Os sinais de alerta, que podem apontar para a possível presença de Discalculia são, de acordo com o grupo etário:

Idade Pré-escolar:
Dificuldade em:

  • Seriar os objetos por categoria
  • Compreender os conceitos de “mais que” e “menos que”, “pouco” e “muito”, “antes” e “depois”
  • Associar cada número a um objeto
  • Ordenar os objetos pelo tamanho
  • Aprender a contar (conta até 10)
  • Copiar os números

Idade escolar (ensino básico):
Dificuldade em:

  • Determinar corretamente pequenas quantidades (3/4) sem contá-las
  • Compreender as relações de ordem (>,
  • Realizar somas e subtrações simples
  • Usar os dedos para contar ou adicionar
  • Começar sempre a partir do 1 para adicionar números
  • Associar corretamente o número à sua representação gráfica
  • Contar de modo automático
  • Contar por ordem inversa
  • Contagens complexas (2 em 2, 5 em 5, 10 em 10…)
  • Reconhecer a ordem estável e fixa dos números
  • Identificar que o último número contado indica a soma total dos objetos
  • Reconhecer que os elementos são contáveis independentemente da sua forma física
  • Reconhecer que o número de objetos é sempre o mesmo independentemente do lugar que ocupam

Pré-adolescência:
Dificuldade em:

  • Ler corretamente números com mais do que um dígito
  • Aprender as horas
  • Recordar/memorizar sequência dos dias da semana e dos meses do ano
  • Resolver problemas matemáticos
  • Organizar a situação problemática na folha, colocando os números nas colunas ou linhas apropriadas
  • Utilizar um processo rápido e eficaz para atingir resultados
  • Seguir um método para efetuar o cálculo com sucesso
  • Calcular mentalmente, sem recorrer à escrita
  • Dominar as unidades de medida
  • Discriminar a leitura e escrita de números (52 – 25)
  • Automatizar as competências ensinadas (lentidão na resolução das operações)
  • Utilizar corretamente os sinais das operações (+, -, x, ÷)
  • Dominar a ansiedade gerada pelas aulas de matemática
  • Memorizar e recordar factos numéricos, conceitos matemáticos, fórmulas, regras, sequências…

O adolescente e o adulto jovem:
Dificuldade em:

  • Utilizar os números no seu quotidiano
  • Efetuar corretamente cálculos de acordo com o grau de escolaridade
  • Automatizar as tabuadas
  • Efetuar cálculos básicos, sem calculadora
  • Encontrar estratégias para resolver problemas
  • Fazer estimativas
  • Calcular probabilidades
  • Estes sinais não podem ser considerados isoladamente, sendo essencial enquadrá-los no contexto pessoal, escolar e familiar da criança.

Diagnóstico Diferencial

Critérios diagnósticos – DSM-5®

A Discalculia é uma Perturbação Específica da Aprendizagem na área da Matemática, caracterizando-se por uma dificuldade significativa nas competências aritméticas, no contexto de um funcionamento intelectual normal, de práticas pedagógicas adequadas e de estabilidade emocional.

O DSM-5® define os seguintes Critérios de Diagnóstico:

A. Dificuldades na aprendizagem, e no uso de capacidades académicas, conforme indicado pela presença de pelo menos um dos sintomas seguintes, que persistem por pelo menos 6 meses, apesar de proporcionadas intervenções dirigidas a essas dificuldades:

  1. Leitura de palavras incorreta, ou lenta e esforçada.
  2. Dificuldade em compreender o significado do que é lido.
  3. Dificuldades na ortografia.
  4. Dificuldades na expressão escrita.
  5. Dificuldades em dominar o sentido de número, os factos numéricos ou o cálculo mental.
  6. Dificuldades no raciocínio matemático.  

B. As capacidades académicas afetadas são substancialmente, e quantitativamente, inferiores ao esperado para a faixa etária e interferem significativamente nas atividades escolares, quotidianas e profissionais.

C. As dificuldades iniciam-se em idade escolar, mas podem manifestar-se apenas na idade adulta.

D. Para concluir o diagnóstico devem ser eliminados défices cognitivos, visuais e auditivos, problemas mentais e neurológicos e condições adversas (problemas psicossociais, ensino inadequado…).

Ainda de acordo com o DSM-5®, apresenta características específicas que incluem dificuldade significativa no conceito de número, na memorização dos factos ariméticos, na fluência e precisão do cálculo e do raciocínio matemático.

A Discalculia, como qualquer outra perturbação de aprendizagem, não é uma entidade isolada e uniforme, existem muitas variáveis que fazem com que esta se distribua ao longo de um continuum.

Comorbilidades

A investigação científica e a prática clínica apontam para uma forte comorbilidade entre a Dislexia e a Discalculia, estimando-se que 30 a 70% das crianças com uma Perturbação Específica da Aprendizagem apresentem esta comorbilidade.

20 a 60% das pessoas com Discalculia têm também outras perturbações associadas: Perturbação de Défice de Atenção / Hiperatividade (15 a 26%); Perturbação Específica da Linguagem; Problemas neurológicos ou sensoriais; Perturbações da Ansiedade. Shalev e Aster, 20072; Roca et al, 2010 (3).

Intervenção Reeducativa

A Discalculia é uma perturbação de origem neurobiológica, não é um atraso maturativo. Sem intervenção reeducativa adequada, tende a agravar-se. Assim, a identificação e intervenção atempada é a chave do sucesso, sendo importante, intervir o mais precocemente possível, visando minorar o agravamento das dificuldades e a discrepância comparativamente às crianças sem dificuldades.

É possível identificar, desde o Pré-escolar, fatores preditores do sucesso que as crianças irão alcançar nas competências matemáticas (a capacidade de identificar quantidades prediz a capacidade aritmética aos 10 anos de idade, por exemplo) (Kaufmann L, von Aster M, 2012) (4).

Com uma intervenção reeducativa adequada, as crianças melhoram significativamente as suas capacidades ao nível do raciocínio matemático.

Numa intervenção são particularmente eficazes os métodos que incluem o treino sistemático, a segmentação dos conteúdos a ensinar em unidades mais pequenas, a criação de pequenos grupos onde se verifica uma grande interação e a utilização de pistas na aprendizagem de estratégias.

Deste modo, ao intervir é importante:

  • Explicar o diagnóstico à criança e desmistificar a situação;
  • Reforçar periodicamente as noções básicas trabalhadas;
  • Evitar dar os conceitos de modo muito abstrato no início da aprendizagem;
  • Fornecer exemplos da vida real para a utilização de determinado procedimento matemático (número de golos num jogo de futebol, canais de televisão mais vistos...);
  • Encorajar a utilização de material concreto (botões, feijões, dedos) para facilitar a compreensão das operações e conceitos matemáticos (por exemplo, manipular um cubo quando estão a dar os sólidos geométricos);
  • Usar esquemas e diagramas para compreender os conceitos matemáticos e “desmontar” as situações problemáticas;
  • Sugerir a utilização de papel quadriculado para facilitar a organização na folha;
  • Utilizar “músicas e lengalengas” que facilitem a aprendizagem;
  • Usar mnemónicas para aprender os passos necessários à resolução de determinada operação;
  • Pedir à criança que pense em voz alta os passos a serem tomados por forma a facilitar a memorização de todo o processo;
  • Caso se revele necessário, incentivar a utilização de lápis coloridos para a diferenciação das operações a realizar;
  • Permitir que utilize uma “cábula” da tabuada como recurso em situações em que ainda não tenha conseguido memorizar a tabuada.
  • Incentivar a repetição na medida em que o treino sistemático é fundamental para conseguir a automatização e a compreensão de determinada tarefa.

Os estudos parecem indicar que as intervenções mais bem-sucedidas são aquelas que:

  • Promovem as capacidades numéricas básicas;
  • Se concretizam no menor espaço de tempo possível visando a rápida autonomia da criança
  • São planeadas de acordo com as características individuais da criança.
  • São realizadas em contexto de apoio professor/tutor-aluno, do que quando são utilizados apenas softwares no computador.

É muito importante que este trabalho seja feito em estreita colaboração entre todos os intervenientes educativos: criança, pais, professores e técnicos.

As escolas devem proporcionar apoio pedagógico personalizado e adequações no processo de avaliação em função das necessidades específicas de cada criança.

Como todas as aprendizagens, os programas de ensino estruturado ensinam sequencial e cumulativamente as várias habilidades que a criança necessita aprender. O ensino da matemática é um acumular de conhecimentos. Sem que a criança tenha os conhecimentos básicos, jamais chegará ao topo.

Evolução

A Discalculia é uma perturbação que se mantém ao longo da vida, apesar das suas manifestações se modificarem com o tempo.

Quanto mais precocemente for feito o diagnóstico, maior será a facilidade da criança em acompanhar o seu grupo etário.

A evolução dependerá também das comorbilidades:

  • Perturbação Específica de Aprendizagem, caracterizada por problemas na Leitura e na Expressão Escrita – Dislexia e Disortografia;
  • Perturbação de Défice de Atenção/ Hiperatividade;
  • Perturbação Específica da Linguagem;
  • Perturbação da Ansiedade.

O prognóstico depende ainda da severidade do défice, das capacidades cognitivas da criança e da eficácia da intervenção reeducativa.

Recomendações

Quando existe um historial familiar de dificuldades de aprendizagem e/ou quando nos apercebemos que a criança apresenta alguns dos sinais de alerta supracitados, deveremos proceder ao encaminhamento para avaliação cognitiva e psicoeducacional especializada, pois, nunca é demais sublinhar, quanto mais precoce for o diagnóstico, maior será a possibilidade de recuperação e menores os danos a nível emocional.

Saber Mais

Glossário

Discalculia - É um termo alternativo para designar dificuldades de aprendizagem caracterizadas por problemas no processamento de informações numéricas, aprendizagem de factos aritméticos e realização de cálculos precisos ou fluentes (DSM-5®) (1).

Bibliografia

  1. Manual de Diagnóstico e Estatística de Doenças Mentais: DSM-5®. American Psychiatric Association; tradução Maria Inês Correia Nascimento… et al.; revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli..et al.- 5.ª edi. – Porto Alegre: Artmed, 2014.
  2. von Aster, MG, Shalev, R., Number development and developmental dyscalculia; Dev. Me. Child Neurol, 2007; 49; p 868-873.
  3. Roca, Enric; Carmona, Jordi; Boix, Cristina; Colomé, Roser; López, Anna; Sanguinetti, Anna; Caro, Marta; Sans Fitó, Anna (coord.) 2010. El aprendizagem en la infância y la adolescência: claves para evitar el fracasso escolar. Esplugues de Llobregat: Hospital Sant Joan de Déu.
  4. Kaufmann L, von Aster M: The diagnosis and management of dyscalculia. Dtsch Arztebl Int 2012; 109(45): 767–78.DOI: 10.3238/arztebl.2012.0767.

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